Duas ou Três consiDerações soBre minHa Forma De TraBaLHo
Procuro sempre trabalhar com o que não é óbvio. Para mim a ilustração deve ser instigante. Como é uma linguagem visual, não posso pensar em uma ilustração que precise de legendas para ser entendida mas também não posso explicar tudo, mesmo que visualmente. Para uma capa de revista, por exemplo, é preciso muita sintonia entre texto e imagem, senão o resultado pode ficar como as as fotos da revista Caras, cujas legendas são exatamente o que as fotos mostram.Tenho preocupação com os detalhes. Por exemplo: se a ilustração é de um automóvel, é preciso mostrar as pessoas usando o cinto de segurança, colocar os espelhos retrovisores e todos os detalhes do veículo, mesmo se o traço for de cartum. O ilustrador não é fotógrafo, mas tem que ter uma visão ampla de tudo, como numa grande-angular, ao mesmo tempo que tem que ter uma visão de lente macro para captar os detalhes.
Tento manter afastado do meu trabalho qualquer referência ao senso-comum e também tomo muito cuidado para não reproduzir preconceitos e estereótipos.
Se preciso criar um mascote para uma campanha de construção de casas populares, por exemplo, não vou usar um castor, animal que não pertence à nossa fauna, mas um joão-de-barro. Uma vez vi numa campanha contra a dengue um cartum de mosquito que não possuía sua principal característica: as manchas brancas pelo corpo, que o distingüe dos outros mosquitos.
Se vivemos num país onde mais da metade da população é afro-descendente, é preciso representá-la nas ilustrações, pois geralmente os personagens principais são sempre louros e de olhos azuis e os meninos são sempre os donos da situação em relação às meninas. Certa vez vi um livro didático que mostrava o menino branco, louro e de olhos azuis como engenheiro, a menina branca como professora e o menino negro como cozinheiro. Também já tive em mãos vários livros didáticos com discriminação sexista. Num desses livros, a mãe dava uma bronca no filho que chegou em casa chorando porque havia levado uma surra de um colega na rua. A mãe dizia que ele era homem e não podia chorar, e da próxima vez que apanhasse na rua e chegasse em casa chorando, levaria outra surra em casa. Um verdadeiro absurdo.Não tenho a pretensão de mudar o mundo com meu trabalho, mas o mundo que eu posso criar com ele tenta caminhar contra toda forma de preconceito, opressão, senso-comum e ignorância.
Um grande abraço pra você.
Alexandre Bersot